Construir uma personagem não é apenas lhe dar um nome e algumas características. É como criar um ser e brincar um pouco de Deus, imaginando seus desejos, suas habilidades, seu humor... Ou seja, suas características físicas, psicológicas e suas relações com o mundo em seu entorno.
Alguns roteiristas preferem criar personagens e depois imaginar suas histórias, outros preferem pensar uma história e depois encaixar personagens nelas. As duas opções são válidas. Depende do seu processo criativo, que pode variar para além disso.
A Guardiã surgiu com uma imagem: uma garotinha com uma flor na mão, sendo ameaçada por um ser mágico. A partir disso fomos desenvolvendo quem seria essa menina e essa flor. Quem seria esse ser mágico a ameaçando. Que mundo era esse. E que outras personagens estariam envolvidas.
Desde o início, não queríamos trabalhar com tipos rasos, como a mocinha e a vilã simplesmente. Por isso, a ideia da criação desse mito das Tuncas, seres místicos ligados à própria criação do planeta. A luz e a sombra existem em Iara e Jurema, porém, elas trazem possibilidades além do maniqueísmo do bem e do mal. A missão de Iara não é destruir Jurema, mas fazê-la compreender a verdadeira missão da luz. Como Luke, que quer resgatar Darth Vader do lado sombrio da força.
Essa perspectiva de personagens redondos foi aumentando com a evolução da narrativa. Ou seja, personagens que possuem nuanças em sua personalidade que os aproximam dos seres humanos reais. Ao contrário dos tipos que eram imutáveis e acabam mais próximos de caricaturas e que eram mais comuns em narrativas mais antigas.
Para personagens redondos, é preciso compreender melhor os seus papéis, construir sua planilha de habilidades, forças, fraquezas, sonhos, desejos, segredos. Há algumas disponíveis em livros, um que gosto de indicar é a entrevista com o seu protagonista do livro de Marcos Rey "O roteirista profissional".
A ideia é conhecer ao máximo a sua personagem, isso vai ajudar na escrita de suas ações e principalmente de seus diálogos. Pensar como elas ao escrever e não como o roteirista, guiando-as. Quanto mais você conhece sua personagem, mais vida e independência ela ganha em cena.